‘Diego, dá uma mão’: Argentina x Inglaterra revive tensões históricas | Copa do Mundo 2026


Quando a seleção argentina de futebol entrou em campo depois de derrotar a Suíça por 3 a 1, comemorou cantando A Quarta Stella, o hino não oficial do país na Copa do Mundo.

“Pelas Malvinas, por Diego”, cantavam Lionel Messi e seus companheiros, invocando as Ilhas Malvinas – conhecidas como Ilhas Malvinas na Argentina – e sua lenda do futebol Diego Maradona.

Os textos já haviam se tornado onipresentes na Argentina durante este torneio, mas ganharam um novo significado quando foi confirmado que a semifinal da Copa do Mundo de quarta-feira colocará mais uma vez a Argentina contra a Inglaterra.

Quase quatro décadas depois do golo da “Mão de Deus” de Maradona e do seu famoso remate a solo terem ajudado a Argentina a triunfar num dos jogos mais políticos do futebol – após a Guerra das Malvinas entre os dois países em 1982 – a meia-final de quarta-feira está novamente a ser discutida, tanto na Argentina como no Reino Unido, como muito mais do que um jogo.

O gol da ‘Mão de Deus’ de Diego Maradona durante a vitória da Argentina sobre a Inglaterra nas quartas de final da Copa do Mundo FIFA de 1986. Fotografia: Daniel Motz/Alamy

“Por trás da seleção argentina há pessoas que ainda carregam dor, que não querem esquecer sua história e que querem vencer no campo de futebol”, disse Pablo “Palmito” Quintana, o músico que escreveu a música, explicando por que colocou “Malvinas” na letra. Quintana, de 30 anos, não estava vivo durante a guerra nem durante os quartos-de-final de 1986, mas concordou que estes jogos “não foram apenas jogos”.

“O partido de 1986 foi um bálsamo para todos aqueles que viveram a guerra”, disse Aldo Leiva, veterano da guerra das Falklands/Malvinas e deputado peronista.

“O futebol tem regras e árbitros. Não houve nada disso na guerra. Muitos argentinos viram a vitória – e a “mão de Deus” – como uma forma de reivindicação porque acreditavam que a Grã-Bretanha tinha agido fora das regras, especialmente ao afundar o General Belgrano”, disse ele, falando do cruzador argentino que foi torpedeado e afundado na zona britânica. O ataque resultou na morte de 323 tripulantes.

Lionel Messi, da Argentina, é jogado ao ar por seus companheiros após a vitória por 3 a 2 na Copa do Mundo da FIFA de 2026 contra o Egito. Fotografia: Justin Setterfield/Getty Images

Víctor Hugo Morales, jornalista uruguaio cujos comentários ao vivo da partida de 1986 se tornaram parte do folclore argentino, disse que as memórias daquela partida estavam “reverberando” mais uma vez.

Disse que, assim como os jogadores argentinos de hoje, o próprio Maradona “insistiu que era apenas uma partida de futebol (antes do jogo). Mas, no fundo, não havia dúvida de que a guerra das Malvinas estava no coração de todos”.

“Argentina x Inglaterra se tornou um clássico. Antes de 1986, era apenas mais um jogo. Desde então, carregou um peso político e emocional que vai muito além do futebol”, disse Morales, que na época descreveu Maradona como uma “águia cósmica”.

Foto da seleção inglesa antes da partida das quartas de final da Copa do Mundo de 2026 contra a Noruega. Fotografia: Rob Newell/CameraSport/Getty Images

A mídia argentina confiou no simbolismo. Crónica, canal de televisão conhecido por suas manchetes sensacionais, antecipou a partida com legendas como “Argentina contra os “piratas ingleses”, “Messi, com M para Malvinas” e “Diego, dá uma mão”. O Dia do Esporte Olé focou no que descreveu como um bom presságio: “É oficial – a Argentina enfrentará a Inglaterra de azul, como em 86”.

Vários meios de comunicação argentinos também noticiaram que, antes da semifinal, o clube de futebol Godoy Cruz pendurou em seu estádio faixas que torcedores haviam tirado dos torcedores ingleses durante a Copa do Mundo de 2014, o que foi amplamente interpretado como uma provocação.

A rivalidade também se desenvolve no contexto dos repetidos elogios do presidente de extrema-direita Javier Milei a Margaret Thatcher, a primeira-ministra britânica que foi o inimigo público número um da Argentina durante o conflito de 1982. “Para muitos argentinos, uma derrota para a Inglaterra também seria vista como uma repreensão política a Milei”, disse Morales.

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Na Argentina, as ilhas continuam a ser um ponto sensível. Mesmo antes da guerra, as crianças aprendiam desde cedo que as Malvinas eram parte integrante do território nacional.

“O problema das Malvinas está na cabeça dos argentinos”, diz Morales. “Os britânicos provavelmente não pensaram duas vezes nas ilhas até a guerra. Para eles, (o confronto com a Argentina) teve muito peso a partir de 1986 por causa do que aconteceu naquele jogo – o gol de handebol e o outro gol brilhante de Diego – mas não em termos das Malvinas”, disse ele.

Daniel Filmus, político e ex-secretário argentino para assuntos relacionados às Malvinas, disse que a reivindicação das ilhas estava incorporada na identidade nacional da Argentina.

“Os sentimentos que muitos argentinos têm pelas Malvinas estão expressos nas canções do futebol. Tanto o hino que se popularizou na última Copa do Mundo quanto a canção deste ano trazem referências às ilhas”, disse.

“A Argentina é um dos poucos países que, quase 200 anos após a perda de território, ainda mantém viva esta reivindicação”, disse ele. “Os argentinos levam isso para onde quer que vão.”

Embora o conflito possa permanecer menos na memória nacional colectiva do Reino Unido, o confronto de quarta-feira já garantiu que a guerra das Malvinas volte a ser notícia nos meios de comunicação britânicos. O Daily Telegraph noticiou os comentários de Pablo Quirno, ministro das Relações Exteriores da Argentina, depois que ele chamou as Ilhas Malvinas de uma população “implantada artificialmente” em um ensaio pedindo discussões sobre o território.

Também houve furor com o ex-jogador de futebol inglês Gary Lineker – artilheiro da Copa do Mundo de 1986 – mencionando o nome argentino das ilhas, Malvinas, ao lado de seu nome em inglês em seu podcast, atraindo desprezo de Mark Dolan, apresentador da plataforma digital de Rupert Murdoch Talk, que disse que era “hora de mostrar este cartão vermelho acordado”.

Entretanto, o jornal The Sun notou que os jogadores argentinos tentaram concentrar-se no futebol. “Sabemos o que o jogo contra a Inglaterra significa para o nosso país, mas é um jogo de futebol e vamos tentar enfrentá-lo da melhor forma”, afirmou o médio Leandro Paredes.



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